A Biblioteca da Meia Noite, de Matt Claig
– Livro ruim com mensagem inspirada

Sensação boa de estar no cenário do livro
Como leitora, não gosto de best seller. Tenho quase aversão aos livros que vendem milhões. O último que tentei ler, 50 tons de cinza, não passei da terceira página.
Mas não resisti à Biblioteca da Meia Noite, de Matt Haig (Editora Bertrand Brasil). Li a sinopse e fiquei atraída pelo tema. Também fiquei curiosa com o fato do livro já ter vendido mais de 10 milhões de exemplares.
O que seduziu tanto o mundo complicado em que vivemos? Sobre o que falava, afinal, esse livro de tanto sucesso?
A protagonista é Nora Seed, uma jovem que está tão insatisfeita com a vida que pensa em se matar. Então, ela vai parar em uma biblioteca com livros que lhe darão a possibilidade de experimentar outras vidas, viver outras situações, desfechos e destinos.
Algumas dessas vidas são inéditas, enquanto outras fazem parte de períodos que ela já experimentou, como ser campeã de natação, atuar numa banda musical ou se casar com o suposto amor da sua vida que ela tinha abandonado.
Ao viver as vidas que ela lamentava não ter vivido, muitos detalhes idealizados se apresentam muito, muito diferentes.
Como qualidade literária não é grande coisa, mas algo se salva
São 306 páginas que me custaram muito chegar ao fim. Já desisti de algumas leituras de grandes autores, mas este, mesmo num ritmo de leitura lento, que não é o meu, não conseguir deixar de lado. Significa que alguma coisa me prendeu e isso é um ponto positivo.
Já a qualidade da escrita, quando falamos de literatura, deixa muito a desejar. Eu sei que a tradução trai a obra, mas se isso fosse uma regra, Dostoiévski e Kafka não seriam quem são, com suas obras reconhecidas nos mais variados idiomas. Portanto, não é isso.
Implico um pouco com o modo como os autores contemporâneos, especialmente em lingua inglesa, escrevem.
É um jeito que quer ser espirituoso, mas acaba superficial e chatinho (minha opinião).
Com Matt Haig não é diferente. Além disso a narrativa é repetitiva, às vezes insuportável. Tem alguns trechos muito ruins, que vou nos poupar de reproduzir aqui. É como se o livro não tivesse sido editado, a impressão é que tem muito texto inútil e isso o torna cansativo.
No entanto, o conteúdo no geral demonstra que o autor é um que pensa sobre as coisas, flerta com conceitos de física quântica, tem a sua profundidade – e também tem uma fantasia bastante elástica. E esses são méritos de escritor que não podem ser tirados.
Dá para entender o que agradou tanto ao vasto público do livro:
a identificação
Quem nesse mundo não desejou, em algum momento, ter uma vida diferente daquela que leva, ou elucubrou como seria se tivesse seguido por esse ou aquele caminho?
E quando se pensa em uma vida diferente, imagina-se, via de regra, ter mais poder, sucesso, dinheiro e variáveis do que pode ser a felicidade.
Através dos livros da Biblioteca, Nora faz esse exercício e nos conta como é, com realismo e honestidade. Vemos, pelas vivências dela, que não existe realidade paralela, existe a vida que nos foi dada e é esta que devemos viver e apreciar.
Em uma das vidas, por exemplo, ela é uma celebridade cercada de uma legião de fãs, jornalistas e o resto, mas também enfrenta falsidades, maus empresários, processos judiciais, exposição, falta de privacidade e o medo constante de perder protagonismo. O que idealmente é uma vida maravilhosa, tem seus percalços, e como tem. Diz o livro:
Então a fama é isso? Como um coquetel ao mesmo tempo doce e amargo de adoração e agressão? Não era de espantar que tantas pessoas famosas saíssem dos trilhos quando só trilhos viravam em todas as direções.
Quando a Nora cantora famosa faz um discurso no palco, ela diz ao seu publico.
…O caminho que a gente considera o mais bem sucedido a seguir, na verdade não é. Porque muitas vezes nossa visão de sucesso vem de alguma noção falsa e externa de conquista, seja uma medalha olimpica, o marido ideal, um bom salário. E existem todas essas métricas que a gente tenta alcançar. Quando, na real, o sucesso não é algo que se possa medir, e a vida não é uma corrida que se possa vencer.
Neste outro trecho, o autor coloca algo que parece óbvio, mas é simples e sábio:
Se você tem como objetivo ser algo que você não é, vai sempre fracassar. Tenha como objetivo ser você. Parecer, agir e pensar como você. Ser a versão mais verdadeira de si. Ame apoie trabalhe arduamente essa singularidade. A maioria das fofocas é inveja disfarçada.
Acredito que, tudo somado, o livro fez sucesso porque, apesar das suas grandes imperfeições, diz aquilo que as pessoas, mergulhadas nas suas insatisfações, precisam saber. Alguma coisa que, entre outras coisas, as retire um pouco do mar de comparações que nos consomem na era das redes sociais. Diz Matt Haig que:
…é fácil imaginar que existem caminhos fáceis. Mas talvez não existam caminhos fáceis, só caminhos.