Caveira, quem te matou?
- O que essa fábula nos ensina sobre os comentários maldosos das redes sociais

Ele disse à plateia que aquela caveira, toda trabalhada no osso, era capaz de falar e isso selou o seu destino
Trago uma fábula que ouvi quando era criança, e essas histórias, se sabe, sempre deixam uma moral no final. Vamos descobrir juntos qual pode ser.
Um homem vinha caminhando por uma estrada deserta quando avistou uma caveira. Silenciosa e cercada de mistério, como são as caveiras. O sujeito era desses com pouca emoção e não se assustou, nem olhou para os lados para ver se teria algum perigo por perto.
De maneira leve e superficial, lançou a pergunta, assim, para passar o tempo, para encher o saco, para tirar onda:
– Caveira, quem te matou?
Qual não foi sua surpresa quando a caveira, sem mover um osso, respondeu:
– Foi a língua.
Os sentidos dele se acenderam.
Uma caveira falando?
Alguém com um comportamento dentro da normalidade se assustaria, sairia correndo, supondo que a alma da caveira estaria se manifestando, etc
Mas ele, que era um cara assim, meio frio, não. Perguntou de novo.
– Caveira, quem te matou?
– Foi a língua – respondeu prontamente a caveira.
Perguntou uma terceira vez. E a caveira, no mesmo tom, sem acrescentar nada de novo, se limitou a repetir com uma voz meio metálica, como imagino deva ser a voz de uma caveira. Uma voz sem gênero nem idade, sem rouquidão.
– Foi a língua.
Antes de seguir ao desfecho temos que dizer quem era esse sujeito que perguntava. Se chamava Luiz Eliodoro das Neves e andava na casa dos 38 anos de idade, sem ter feito nada de bom ou útil na vida.
Na cidadezinha onde morava, todos conheciam sua fama de aplicador de golpes, tanto que já tinha sido preso mais de uma vez. Era desacreditado esse Luiz Eliodoro, porque para enganar os outros ele tinha que inventar coisas, em suma, vivia mentindo.
Nesse período em que encontrou a caveira falante ele andava muito mal de dinheiro, esperando alguma chance de subtrair qualquer coisa de algum desavisado.
Quando a caveira o respondeu, ele pensou:
Tenho um tesouro nas mãos, chegou a minha vez de ganhar dinheiro fácil.
Começaria apresentando a caveira na pequena cidade onde nasceu, depois, o céu era o limite. Seria convidado para circos internacionais, (sim, são. tempos antigos), os cientistas iriam querer pesquisar, afinal, se tratava de algo inédito na história da humanidade. Sua fama iria longe e, junto com ela, entraria dinheiro, luxo, conforto, amigos (amigos?), enfim, a vida melhoraria em tudo por tudo.
Foi com esses pensamentos megalomaníacos que ele pegou a caveira, colocou num embornal (sim, são tempos antigos), e caminhou vigorosamente até a cidade.
Encaminhou-se até a feira semanal e anunciou que tinha algo espetacular para mostrar, algo que ninguém nunca tinha visto, algo excepcional e por aí vai.
Credibilidade ele não tinha, mas, falando assim, quem não fica curioso?
Ele então estendeu o chapéu e disse aos interessados que contribuíssem com algo correspondente a 10 reais cada um. Essa era a condição para mostrar a espantosa raridade que trazia dentro do saco.
Balançando a nota antes de depositá-la no chapéu, um homem de meia idade disse a ele, em tom desaforado.
– Olha aqui, cabra, 10 reais. Agora se for palhaçada você vai se dar mal porque ninguém mais aguenta suas mentiras.
Ele olhou para o homem com desprezo e disse todo cheio de si.
– Aguarde que vou fazer você engolir esses insultos.
– Pois estou esperando, mostre logo o que tem nesse saco – disse o homem.
– Tem que juntar mais gente, não vou mostrar uma coisa sensacional para dois gatos pingados
A notícia de que uma grande novidade estava prestes a ser apresentada na feira logo se espalhou, e o povo foi chegando.
Juntou uma pequena multidão, cada um deitando 10 reais no chapéu de Luiz Eliodoro. A soma se acumulava, tanto que ele pediu emprestado mais dois chapéus para a arrecadação.
Foi então que, atendendo a pedidos impacientes da plateia, nosso trapaceiro retirou a caveira do saco.
Somente aí o público já se impressionou.
Uma caveira exibida assim, em plena luz do dia…ohhh!
Finalmente, ele explicou que aquela caveira, toda trabalhada no osso, era capaz de falar. Esbugalharam os olhos, alguns não conseguiam fechar a boca, nem levantar o queixo. Alguns tinham compromissos, mas esqueceram a pressa, qualquer coisa era menos urgente do que ver uma caveira falante.
Alguém mais ao fundo gritou que era trapaça porque ele poderia fazer voz de ventrículo. Luiz Eliodoro se deu de ofendido:
– Pois recolham o dinheiro de vocês, pelo amor de Deus, não estou fazendo questão. Vou saindo pra… – disse citando a cidade vizinha, enquanto recolocava a caveira de novo no embornal.
Houve um burburinho, muita gente reprimindo o autor do comentário. Até que uma mulher disse bem alto.
– Se não acredita não precisa ficar aqui para assistir.
Os presentes, loucos por uma novidade que amenizasse a vida tediosa de sempre, e crente num espetáculo milagroso, reforçou as palavras da mulher.
Luiz Eliodoro sentiu-se acolhido e confortável, a coisa caminhava bem. Deu mais uma pausa e pediu silêncio. Aquele trecho da feira se fez mudo e respeitoso.
Finalmente, ele posicionou a caveira bem direitinho em cima de um monte de tijolos, fez mais alguns minutos de suspense, até que lançou a pergunta original feita e refeita na estrada.
– Caveira, quem te matou?
Esperou 30 segundos.
Nada.
– Caveira quem te matou?
Esperou um minuto.
A caveira permaneceu muda, coerente com o modo como se comporta uma caveira.
Ele foi repetindo a pergunta e já se notava algum nervosismo na voz, o povo espremido, esperando, os chapéus com o dinheiro ali do lado.
O sol estava quente, Luiz Eliodoro começou a suar à medida que insistia. A um certo ponto, começou a dar cascudos na caveira, como a acordá-la. Depois, a sacudiu, sempre com a mesma pergunta.
E a sujeita, nada. Pirracenta, muda.
Com aqueles dentes todos, parecia que ria da agonia do rapaz. Devia estar rindo mesmo, se divertindo, pessoa do mal essa caveira.
O povo perdeu a paciência, se ouvia rumores, ele pediu um pouco mais de paciência.
Esperaram em vão.
Insuportável, essa caveira, se falou antes porque agora ficava assim, parecendo um monte de osso morto? Custava responder…
Não é difícil supor que Luiz Eliodoro se deu muito mal.
Como a história é antiga, existe mais de uma versão para o desfecho.
Alguns dizem que as pessoas simplesmente pegaram o dinheiro de volta e deram grossas vaias ao trapaceiro, em meio a xingamentos, dedos na cara, empurrões e ameaças.
Outras dizem que, na hora de pegar o dinheiro do chapéu, houve confusão entre os doadores, Luiz Eliodoro aproveitou para fugir e até hoje não se sabe o paradeiro dele.
E uma terceira versão, essa trágica e, infelizmente, a mais provável. O povo, cansado das trapaças do rapaz, o linchou sem piedade, restando apenas restos espaçados do pobre aqui e ali.
A polícia estaria por perto, mas fez corpo mole, deixando o povo sentenciar o infeliz.
Se assim foi, ele certamente entendeu, nos últimos momentos de vida, o recado da caveira. Seu pecado foi não ter prestado atenção ao conteúdo, concentrado-se apenas na forma.
Afinal, tinha lhe dito claramente a caveira que, quem a matou, foi a língua.
Ora, se a língua foi capaz de matar alguém, o melhor é refrear essa mesma língua, ou não? A caveira podia não ser boa pessoa, mas era coerente, isso era.
Ou seja, a língua, mal aplicada, pode trazer consequências terríveis, incluindo uma morte dolorosa.
Um adendo:
Nos nossos tempos, vejo a língua atuando de forma desenfreada nas redes sociais, opinando sobre tudo, criticando sem piedade. De fato, é uma tentação falar mal dos outros quando ninguém está olhando. Não estou julgando, que jogue a primeira pedra quem nunca fez um comentário maldoso, soltou uma ironia. Mas o melhor é evitar. Se não for para somar, o melhor é deixar passar ou, no máximo, faça uma crítica construtiva. Não plante dor alheia, não acumule carmas.
Se aplica também a outro fenômeno dos nossos tempos: a fake news, também esta capaz de estragos enormes. Antes de saber se algo é verdadeiro, melhor não compartilhar, não passar adiante.
Como a moral da nossa fábula, vamos segurar a língua, metaforicamente, vamos segurar os dedos que digitam, os venenos que lançamos anonimamente como se nada fosse.
Lembre-se que tem sempre a possibilidade da caveira não te responder.
Texto: June Meireles
Foto: Pixabay